Tom Zé 

90 anos do Inquieto Jardineiro de Sons

Irará

Onde tudo começou…

.Os primeiros acordes desta “sinfonia” chamada Tom Zé – Antônio José Santana Martins – foram ouvidos no dia 11 de outubro de 1936 em uma pequena cidade do interior da Bahia chamada Irará, coincidência ou não, o próprio nome da cidade onde nasceu já é melodioso, e a música foi parte integrante da vida de Tom Zé desde seu princípio. Das cantigas de ninar da mãe, ao bumbo da orquestra do baile -cuja parede era encostada a seu quarto e cujo som o acompanhou durante  a infância – estas memórias se perpetuaram e vieram a  desencadear posteriormente uma curiosidade sobre o mundo, que se manifestou através da exploração da diversidade dos sons, sua busca constante enquanto profissional e amante desta linguagem tão complexa quanto bela que é a música.

A descoberta que mudou tudo!

A infância de Tom Zé  foi marcada por contrastes: seu pai era de uma família muito pobre e simpatizante do comunismo, enquanto que a mãe de família rica e extremamente reacionária, portanto desde que nasceu ele teve que aprender a dialogar com diferentes  ideologias, valores e comportamentos. De um lado convivia com a desaprovação do casamento de seus pais por parte da família de sua mãe, o que lhes gerou um certo isolamento em relação aos seus parentes maternos; e por outro lado convivia com a compreensão e também com uma enorme riqueza cultural  da família paterna.
 
       Riqueza esta que compreendia desde o convívio com o homem da roça na loja de tecidos de seu pai – onde Tom Zé aprendeu a língua de Guimarães Rosa e conheceu as desventuras do sertanejo que viria a reconhecer na obra “Os Sertões” de Euclides da Cunha – até as reuniões do partido comunista que ocorriam muitas vezes na sua casa, onde ele conheceu vários escritores e intelectuais famosos como Jorge Amado.


         Desde cedo os olhares e ouvidos de Tom Zé se voltaram para as dualidades, as multiplicidades , para as várias formas de linguagem e de expressão das pessoas, não importando a classe social,  religião,  partido político.  Para ele sempre pareceu estranho que o mesmo homem sério que trabalhava como marceneiro, sustentava a casa, cuidava da família, enfim tinha várias responsabilidades, no Carnaval  ao tocar um instrumento se transformasse em criança e fosse para a rua brincar; ou ainda que pessoas comuns como o açougueiro, tivessem seu dia de glória representando o Bumba-meu-Boi como o personagem principal e neste momento fosse respeitado por todos na comunidade. Estes comportamentos dos adultos causavam muita “estranheza” a Tom Zé, assim como o advento da luz elétrica, do motor elétrico, dos carros.  Porém duas destas “estranhezas” foram fundamentais para  transformar sua vida. A primeira delas foi a descoberta do alfabeto na escola, mas não o alfabeto das letras – que este ele aprendeu em casa – mas o alfabeto que fazia as coisas terem um sentido único, na realidade foi a percepção da linguagem que o impactou, e a segunda foi descoberta da música, que mudou sua vida para sempre e aconteceu por acaso.

Em 1950 Tom Zé foi para Salvador continuar seus estudos, uma vez que em Irará só havia escolas até o curso primário. Lá ele foi viver com familiares, e  esta fase marcou um período muito difícil de sua vida, pois não conseguia se adaptar e estava muito infeliz, tanto que acabou se desinteressando dos estudos, e estava totalmente indeciso sobre quais rumos tomar quanto ao seu futuro. O destino foi ao seu encontro em uma tarde, no ano de 1954, quando aos 17 anos,  a caminho da praça de Irará para encontrar as meninas e “providenciar sua vida de namoros”, um amigo seu – Renato – passou por ele e disse: “Tom Zé, eu não toco mais flauta, agora eu toco violão, você precisa ver como violão é bonito”. E assim que Tom Zé ouviu seu amigo dedilhar as cordas do violão ficou encantado com os sons e principalmente pelas inúmeras possibilidades de fazer novos sons.

E a partir daí, Tom Zé se dedicou a explorar  música, primeiro através do violão, depois de outros instrumentos como o violoncelo e o piano, e  começou também a compor, inicialmente canções que retratavam sua vida e os personagens de sua cidade, e depois apurando sua visão crítica, músicas que falavam sobre a situação política e social do país, a padronização da cultura através dos meios de comunicação de massa ( rádio e TV ) e que faziam observações sempre bem humoradas e ao mesmo tempo muito ferinas das situações cotidianas.

Desde cedo, também Tom Zé percebeu que jamais faria “música bonita”, que aqui poderia se definir como música totalmente consonante,  ele se dava melhor inventando um processo do que tentando seguir o que os mestres tinham praticado com bastante eficiência e sabedoria, o que efetivamente se constata ao longo de sua carreira e obra. Obra esta que apresenta as influências mais diversas, desde o canto das lavadeiras da Fonte da Nação, dos cantadores de rua, das feiras, das emboladas – que exigiam uma vivacidade tanto de compositores como de ouvintes –  e que apresentavam como característica comum o humor e a crítica também presentes em sua obra, dos programas de rádio,  dos compositores eruditos como Beethoven, Debussy, Stravinsky, Schöenberg, Villa Lobos, de literatos como Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e João Cabral de Melo Neto, cuja linguagem ele tenta transpor para sua música e até das artes plásticas, quando ele se inspira nos móbiles de Alexander Calder como concepção para criar uma música que é sempre diferente.

Segundo Tom Zé, ele sempre conviveu com música, num estado de “simplesmente estar com ela” , em uma cidade pequena como a que ele nasceu, todos os grandes eventos giravam em torno de política e religião e sempre acompanhados por música, além disso, existia o serviço de alto-falante da cidade através do qual ele teve contato com Luiz Gonzaga, o samba paulistano de Adoniran Barbosa, a música sertaneja de Jararaca e Ratinho e os cantores românticos da Rádio Nacional como Herivelto Martins, Dalva de Oliveira, Nora Ney e Antônio Maria. Apesar de absorver várias influências musicais,  no Nordeste é destacada a importância do ritmo, segundo Tom Zé em uma entrevista, concedidas à Christopher Dunn,durante sua estada no Brasil para pesquisar sobre o tropicalismo: 
 
“ Para nós ( nordestinos) o ritmo é talvez  a única maneira de aproximar-se de Deus, e fiquei pensando muito nisso. E depois eu disse que nessa maneira de salvar-se da perda da cultura o nordestino acabou fazendo do ritmo a cápsula mais concentrada de cultura, que se torna quase a própria figura de Deus desidratado. Vem dessa idéia …que para mim, realmente, é uma paixão…




Salvador

Depois da incrível descoberta  através do amigo Renato, Tom Zé foi para Salvador e passou a se dedicar à música. No ano de 1960, fez sua estréia na televisão com relativo sucesso,  participando de um programa de calouros muito famoso na época na Bahia  chamado Escada para o Sucesso. Ele se apresentou com uma música sua intitulada Rampa para o Fracasso que  compôs através de um processo de colagem, recortando notícias  de vários jornais e relacionando os vários fatos destacados, sempre de forma bem humorada, irônica e crítica, a começar pelo título da música que é uma franca sátira ao nome do programa.  Nesta época ele trabalhava para o CPC ( Centro Popular de Cultura ) de Salvador, e por sugestão de seus colegas, resolveu se inscrever no vestibular de Música.

Tom Zé foi aprovado em primeiro lugar no exame vestibular da Universidade Federal da Bahia e ingressou na Escola de Música em 1962.  O reitor Edgard Santos  tinha um projeto de transformar a Bahia, e mais especificamente a Universidade Federal da Bahia em um pólo gerador de cultura, e para tanto trouxe renomados mestres internacionais para lecionar na Universidade como a arquiteta italiana Lina Bo Bardi; a bailarina e coreógrafa polonesa Yanka Rudzka, o antropólogo e fotógrafo francês Pierre Verger; o escritor português Agostinho da Silva. Na escola de música, Tom Zé teve o privilégio de estudar História da Música com Hans JoachimKoellheuter; violoncelo com os maestros  Walter Smetak e Piero Bastianelli; composição e estruturação com  Ernst Widmer; contraponto com Yulo Brandão; harmonia com JamaryOliveira;piano com Aída Zolinger e violão com Edy Cajueiro. Esta incrível conjunção de talentos era o lugar perfeito para que Tom Zé pudesse exercitar todo seu potencial criativo.

Em 1964 conheceu Gilberto Gil e Caetano Veloso, e juntos com Maria Bethania, Gal Costa,  na época ainda usando o nome de Maria da Graça,  e Alcyvando Luz organizaram um show de Bossa Nova no Teatro Vila Velha em Salvador intitulado ”Nós por exemplo 2”, onde apresentou duas composições de sua autoria – Maria do Colégio da Bahia e Moreninha.
Este contato com Caetano Veloso e Gilberto Gil o trouxe a São Paulo pela primeira vez em 1965, para participar juntamente com Maria Bethânia , Gal Costa , Piti e Jards Macalé, do espetáculo Arena Canta Bahia, dirigido por Augusto Boal, encenado no Teatro de Arena. Este espetáculo foi idealizado por Boal para discutir temas ligados à vida dos nordestinos como a seca, a pobreza, a injustiça social e a luta pela terra.

São Paulo 

         Ao término dos estudos em 1967, por sugestão do amigo Caetano Veloso resolveu vir para São Paulo e se dedicar a carreira profissional. Palco dos famosos festivais de música transmitidos pela TV Record, apresentava naquela época um panorama cultural extremamente agitado principalmente  pelo embate entre os “puristas” da Música Popular Brasileira e os amantes do iê-iê-iê, representados pela  Jovem Guarda. Neste ano Tom Zé concorreu no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record com a música Moreninha classificada entre as finalistas. Os grandes destaques deste Festival foram as presenças de Gilberto Gil e Caetano Veloso que concorreram com Domingo no Parque e Alegria Alegria respectivamente, e conquistaram o segundo e quarto lugar, sendo que o III Festival foi vencido por Edu Lobo em parceria com Capinan, autores da música Ponteio,  Chico Buarque ficou em segundo com a música Roda Viva, e Roberto Carlos ficou em quinto lugar com a música Maria, Carnaval e Cinzas. Outro destaque deste festival foi a vaia homérica recebida por Sérgio Ricardo com a música Beto Bom de Bola e sua violenta reação arrebentando o violão no palco e fazendo um discurso inflamado contra o público. O que se percebe através dos festivais é uma disputa  entre os vários estilos existentes na Música Popular Brasileira,  e entre  seus  compositores e intérpretes, cada vez mais acirrada em função da relação com o mercado e o domínio cada vez maior das gravadoras e dos meios de comunicação de massa como o rádio e a televisão. Tais mudanças geraram transformações também na produção cultural daquele período e foi neste contexto, que a música de Tom Zé São São Paulo (anexo 1 ), foi escolhida como a vencedora no IV Festival de Música Popular Brasileira da TV Record no ano de 1968.  

             Tom Zé estava a pouco tempo vivendo em São Paulo, mas como um bom observador conseguiu tecer uma representação perfeita da cidade, na  música vencedora do IV Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. Escolha do júri oficial, acabou conquistando o público com um refrão contagiante e por homenagear a cidade que sediava  o festival. Contou a seu favor com as mudanças que ocorreram nas temáticas dos festivais observadas por Marcos Napolitano, como citado anteriormente. A letra da música caiu de imediato no gosto popular, a tal ponto da Câmara de Vereadores de São Paulo fazer menção de transformar a música em hino oficial da cidade. Talvez tal não tenha ocorrido porque algum observador mais arguto deve ter percebido a ferina crítica que estava presente na letra  que ao mesmo tempo  que  fala São São Paulo/ Quanta dor!,  destaca também os aspectos positivos da cidade ao completar o refrão: São São Paulo/ Meu amor!

              

Tom Zé 90 anos  

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